O raciocínio emocional é uma armadilha mental muito comum. A forma como nos sentimos colore, inevitavelmente, a forma como vemos o mundo à nossa volta. Já alguma vez disseste “Desculpa, fiz isto mal, sou mesmo parvo”? É uma frase inofensiva e talvez até te sintas parvo de vez em quando. Mas porque não dizê-lo com mais rigor? “Desculpa, neste momento sinto-me um bocado parvo.” A diferença é subtil. No primeiro exemplo, afirmamos com toda a certeza que somos parvos, só por causa de um momento. No segundo, descrevemos aquilo que sentimos de facto, agora.
A forma como falamos connosco é importante para a nossa confiança e para a nossa saúde mental. Se não tivermos cuidado, podemos cair no raciocínio emocional: confundir aquilo que sentimos com factos reais. Isso pode afetar a nossa confiança e a nossa vontade de mudar. Felizmente, os nossos sentimentos, as nossas ações e os seus resultados estão sempre a mudar. Somos mais do que uma situação. Somos mais do que uma única coisa. Vamos olhar com mais atenção para o raciocínio emocional.
O que é o raciocínio emocional?
O raciocínio emocional acontece quando acreditamos que as nossas emoções definem a realidade. No exemplo acima, em vez de reconhecermos a parvoíce como um sentimento passageiro, rotulamo-nos como uma pessoa parva. É fácil cair nisto. Afinal, se sentimos algo com tanta força, tem de ser verdade... não tem? Não necessariamente.
Aqui ficam alguns exemplos de raciocínio emocional em ação:
- “O mundo é um sítio assustador.”
- “Sou culpado.”
- “Sou burro.”
- “Não sei estar com as pessoas.”
Agora compara-os com estes:
- “Sinto medo.”
- “Sinto-me culpado.”
- “Cometi um erro.”
- “Sinto-me sozinho.”
É só um palpite, mas provavelmente já disseste a ti próprio uma das quatro primeiras frases, pelo menos de vez em quando. Na realidade, as quatro seguintes estão provavelmente mais perto daquilo que sentias de facto.
A diferença está no carácter intemporal das frases. “Sou” ou “o mundo é” são muito definitivos. Afirmam um facto, algo que pesa e parece difícil de mudar. “Sinto” ou “cometi” descrevem um momento, algo que está a acontecer agora mas que se resolve facilmente ou depressa fica para trás. Não só sabe melhor, como provavelmente é mais verdadeiro. Afinal, podes sentir-te culpado ou com medo, mas não és uma pessoa culpada. Talvez num ponto ou noutro, mas nunca a toda a hora.
O nosso cérebro está sempre a tentar dar sentido ao mundo à nossa volta, e é aí que o raciocínio emocional entra em cena. Como não conseguimos registar conscientemente cada estímulo, tudo o que vemos, ouvimos e sentimos, agimos muitas vezes com base em pensamentos automáticos. Claro que outros acontecimentos da tua vida podem facilmente desviá-los do rumo. Por exemplo, se tens dúvidas sobre um traço da tua personalidade, ou já te sentes stressado ou triste, esses sentimentos podem infiltrar-se nesses pensamentos automáticos e tingi-los. Mas um único sentimento não define quem somos.
O raciocínio emocional pode ser inofensivo, mas também pode transformar emoções passageiras em crenças rígidas sobre nós próprios, difíceis de quebrar. Combinado com outras armadilhas mentais, como o viés de confirmação, podemos cair numa espiral de reforço que transforma um sentimento passageiro num traço de carácter.
Ao reconhecer a armadilha mental no momento, conseguimos impedir que essa espiral sequer comece. E se o momento nos escapar, um momento de reflexão ajuda-nos a corrigir o rumo e a encontrar de novo o caminho certo. Vamos ver como.
Como corrigir o raciocínio emocional
O raciocínio emocional corrige-se dando-te tempo e pondo em causa as crenças que tens sobre ti. Há um hábito simples que ajuda: antes de te deitares, para um pouco e reflete. Escreve os pensamentos ou as emoções fortes que sentiste durante o dia e depois põe-nos à prova, listando aquilo que os contraria. Celebra essa pausa em que pensas a sério no rumo que estás a seguir.
Não te esqueças: as nossas emoções não definem quem somos. Não são verdades absolutas, nem retratam a nossa personalidade. Nós não somos aquilo que sentimos. Estamos bem tal como somos, e ao parar um momento decidimos ativamente se queremos seguir outro estilo de vida ou outra emoção.
Se deres por ti a repetir sempre os mesmos padrões de pensamento, faz alguma coisa quanto a isso. Em vez de afirmações sobre ti a preto e branco, vira a atenção para as soluções. Questiona os teus pensamentos, age e dá-te espaço para cresceres. O raciocínio emocional é apenas uma das muitas armadilhas mentais. Aprender a identificá-las é metade do trabalho.

