Os contratempos fazem parte da vida, mas a forma como reagimos a eles revela padrões escondidos no nosso pensamento. Imagina isto: acabaste de chegar de um encontro romântico e descobres que a outra pessoa não te quer voltar a ver. Como se não bastasse, o teu chefe liga-te mesmo antes do fim de semana para te dizer que vais ser dispensado.
Como lidarias com estes contratempos, um atrás do outro? Talvez dissesses a ti próprio: “Pelo menos ainda tenho saúde.” Isso é bom, porque podemos sentir gratidão por aquilo que nos corre bem. As situações difíceis fazem-nos voltar a dar valor às coisas boas. No entanto, esta linha de pensamento também te pode desviar do caminho. Quando isso acontece, torna-se uma armadilha mental a que se chama a armadilha da gratidão. Vamos explorá-la.
Exemplos comuns
As armadilhas da gratidão assumem várias formas. O cenário acima ilustra a gratidão comparativa: quando te comparas com situações piores e, ao fazê-lo, desvalorizas problemas que são reais. Isto pode ser saudável, porque nos protege, sobretudo quando a situação está fora do nosso controlo. Só se torna uma armadilha mental quando, sem dares por isso, te impede de enfrentar problemas em que podes mesmo influir e que de outra forma terias enfrentado.
A gratidão por vergonha é outra coisa completamente diferente. Esta armadilha da gratidão acontece quando escondes o que sentes de verdade atrás de uma fachada, normalmente para pareceres mais positivo do que realmente te sentes. Por exemplo, podes andar em stress mas, quando os colegas te perguntam como estás, forças um sorriso e dizes “estou ótimo”, negando aquilo que realmente sentes. Tal como o exemplo anterior, isto é relativamente inofensivo. Mas, se for a tua resposta por defeito, pode impedir-te de receber ajuda genuína dos outros, ajuda que podia ter um impacto realmente positivo na tua vida.
Depois há a gratidão pouco sincera. É a mais óbvia, a julgar pelo nome. Às vezes somos apanhados desprevenidos e sentimo-nos pressionados a mostrar apreço mesmo quando não é merecido. Por exemplo, podes pedir a um amigo que te ajude com uma tarefa complicada e ele aparecer-te com um serão de cinema. Por muito boa que seja a intenção, o gesto ignora aquilo de que precisavas mesmo e deixa-te com a sensação de não teres sido compreendido. Ou recebes um presente que não tem nada a ver contigo e depois fazem-te sentir que o problema és tu, por não mostrares o entusiasmo que quem to deu esperava.
Como vês, a armadilha da gratidão surge de muitas formas diferentes. Estas armadilhas são muito comuns e, em geral, inofensivas, mas podem desviar-te do caminho. Vamos ver alguns possíveis efeitos na tua saúde mental.
O impacto na tua saúde
Cair repetidamente em armadilhas da gratidão pode afetar bastante a tua saúde mental, de várias maneiras. Estes padrões podem baixar a tua autoestima, ir corroendo o teu sentido de valor próprio e criar sentimentos de culpa que não fazem sentido. É importante reconheceres o que sentes e perceberes que mereces existir de forma autêntica.
As armadilhas da gratidão tornam-se particularmente prejudiciais quando toldam a tua perceção da realidade ou quando os outros se aproveitam dos teus limites, apresentando as tuas preocupações como falta de gratidão.
Como corrigir
Para te libertares das armadilhas da gratidão, tenta escrever regularmente aquilo por que estás genuinamente grato. Põe as tuas próprias ideias em causa ao longo do dia. Repara nos momentos em que agradeces. Estás a fazê-lo com sinceridade ou porque sentes que é esperado de ti? Certifica-te de que te valorizas tanto quanto valorizas os outros. Podes adicionar «armadilha da gratidão» como pensamento na app Luci para registares este fenómeno sempre que aparecer no teu dia a dia. Quando reparares que acontece com mais frequência, pergunta a ti próprio:
- Porque é que isto me está a acontecer agora?
- Está a fazer-me mal de alguma forma?
- Está a fazer mal a outras pessoas?
No caso raro de sentires que os outros se estão a aproveitar dos teus limites, ou que usam ativamente a armadilha da gratidão para manipular o que sentes, pede-lhes que parem, ou vê se consegues afastar-te da situação. Nunca te esqueças de que aquilo que sentes conta. Os outros devem respeitar os teus limites tanto quanto tu respeitas os deles. Se sentires dificuldade em sair das armadilhas da gratidão, procurar orientação junto de um profissional de saúde mental pode ajudar-te a recuperar a perspetiva e a reforçar o teu valor próprio.

