Aqui a memória é má testemunha. Quando um padrão fica suficientemente evidente para dar por ele, os detalhes que o causaram já desapareceram, e enganamo-nos sistematicamente ao recordar que semanas foram más: a lembrança guarda os picos e os fundos e deita fora em silêncio tudo o que está pelo meio. Contar vale mais do que lembrar, e é exatamente por isso que se escreve alguma coisa. O Luci conta a partir das entradas que já fizeste, e com elas responde a duas perguntas diferentes: o que mexe com o teu humor, e para onde ele vai.

Começa naquilo que etiquetas
Cada entrada pode levar consigo o que estava à volta: com quem estavas, onde estavas, o que tinhas feito, como tinhas dormido. Sozinha, uma entrada etiquetada diz pouquíssimo — que terça-feira foi dura já tu sabias. Duzentas dizem bastante, porque a mesma etiqueta a aparecer quarenta vezes ao lado dos teus melhores dias já não se desconversa. É a parte que exige paciência: as etiquetas são um investimento que nas primeiras semanas não rende nada e depois começa a pagar com regularidade.

Respostas em palavras, não gráficos para decifrar
O Luci olha para tudo o que registaste e devolve o que encontra em forma de frase: que o teu humor está mais baixo no dia a seguir a dormires pouco, ou que uma certa pessoa aparece vezes sem conta nos teus melhores dias. Cada observação diz de que período foi tirada, para que julgues por ti se acreditas: cinco semanas de indícios pesam mais do que cinco dias. O gráfico por baixo continua a um toque de distância se quiseres conferir as contas. Só que não és obrigado a ler nenhum para perceberes a ideia, e isso conta nos dias em que tens menos paciência para gráficos.
A tua média, no período que quiseres
Um mês, uma estação, um ano, ou tudo o que alguma vez registaste. Compara este mês com o anterior, ou este inverno com o de antes. O número útil não é a pontuação de hoje mas a tendência por baixo — e os deslizes lentos não se veem de dentro. Uma descida de um ponto ao longo de dois anos não é coisa que alguém note no dia a dia, e é muito difícil de escapar num gráfico. É também a única forma honesta de responder se uma mudança resultou mesmo: o trabalho novo, deitares-te mais cedo, aquilo que deixaste de fazer.

Que influências pesam a sério
O Luci ordena aquilo que etiquetas conforme o quanto desloca a tua média, mostrando o sentido e o tamanho: fazer bolos pode dar +0,2, uma certa reunião recorrente −1,2. É de propósito um instrumento grosseiro. O que interessa não é o número exato, é ver que duas ou três coisas pesam a sério e quais é que davas por importantes e afinal não são. As pessoas ficam muitas vezes surpreendidas com as coisas pequenas no topo da lista, e com o quão abaixo está afinal aquilo que as andava a preocupar.

Para quem é isto
Para o ponto em que já tens entradas e queres que valham alguma coisa.
Já registas há algum tempo e queres retorno
Ao fim de uns meses, as entradas deixam de parecer levar a algum lado. Esta é a parte que as torna úteis: as mesmas etiquetas contadas ao longo de centenas de dias, transformadas num punhado de frases sobre o que tem mexido mesmo com o teu humor.
Mudaste algo e queres saber se resultou
Um trabalho novo, deitares-te mais cedo, menos tempo com certa pessoa. Se ajudou é quase impossível de julgar por dentro, porque só tens a memória de como te sentias antes para comparar. Pôr a média deste trimestre ao lado da do anterior é um teste bem mais justo.
Queres discutir com as tuas próprias suposições
Quase todos carregamos uma história sobre o que nos faz bem — mexer o corpo, acordar cedo, ver gente. Às vezes a ordenação concorda. Com alguma frequência há algo pequeno e nada glamoroso acima de tudo o resto, e aquilo à volta do qual organizavas a semana acaba algures a meio.
Perguntas frequentes
Quanto tempo até o Luci encontrar alguma coisa?
Umas semanas de registo regular, grosso modo. Os ritmos semanais aparecem primeiro; os sazonais precisam de quase um ano. O Luci diz sobre quantos dados assenta cada observação, para lhe dares o peso adequado.
Isto é feito com IA?
Não. É estatística, e corre no teu dispositivo. Encontrar correlações em uns milhares de entradas é um problema de cálculo que um telemóvel resolve à vontade. O teu diário nunca é enviado para lado nenhum para ser analisado — nem para nós nem para ninguém.
Um padrão significa que uma coisa causou a outra?
Não, e o Luci não afirma isso. Uma correlação é um convite a pensar, não um diagnóstico. Dormir mal e andar em baixo andam juntos nos dois sentidos, e algo que nem sequer etiquetaste pode estar a empurrar os dois. Trata o que aparece como uma pergunta que vale a pena fazer.
Registar um dia mau vai baixar-me a média?
Vai, e é para isso que serve uma média. Tenta não gerir o número — um registo que andas a arranjar fala-te do teu arranjo e não do teu humor.
Posso exportar os meus dados?
Sim. Exporta o diário inteiro quando quiseres em PDF ou em ficheiro de cópia de segurança. Não há qualquer amarra.